De Coxim para Brasília: Gleycielli Guató propõe levar recursos e políticas culturais para o interior de Mato Grosso do Sul
Artista, escritora e cineasta defende descentralização dos investimentos, fortalecimento da cultura indígena e economia criativa como caminho para gerar oportunidades no Estado
Para Gleycielli Nonato Guató, candidata a deputada federal pelo PSOL, falar de cultura também é falar de desenvolvimento, identidade e oportunidade. Nascida e criada em Coxim, no norte de Mato Grosso do Sul, a artista, escritora, educadora, atriz, cineasta e produtora cultural construiu sua trajetória justamente a partir do interior, onde desenvolveu trabalhos em literatura, audiovisual, teatro e formação cultural. Agora, entre suas propostas para a Câmara dos Deputados, está a criação de políticas que ampliem o acesso dos municípios do interior aos recursos federais destinados à cultura.
Uma das principais propostas de sua plataforma é a criação do Programa Brasil das Culturas Vivas, que prevê a destinação direta de parte dos recursos federais da cultura para os municípios do interior, por meio de editais permanentes e ações voltadas à cultura indígena, às comunidades quilombolas, aos povos de terreiro e aos artistas populares. A proposta aponta como fontes de recursos o Fundo Nacional de Cultura, a Política Nacional Aldir Blanc e a Lei Rouanet.
A ideia dialoga diretamente com a experiência de Gleycielli, que fez do interior sul-mato-grossense um espaço de produção artística e de preservação da memória. Para ela, cultura não deve ser tratada como algo acessório, mas como uma ferramenta capaz de transformar vidas e fortalecer comunidades.
“Tudo pode contribuir para aldear a política. A cultura, a literatura, o cinema e a educação podem transformar vidas, proteger o nosso bioma e transformar a maneira como as pessoas enxergam a nossa existência”.
Para Coxim, onde Gleycielli nasceu e construiu parte importante de sua trajetória, a discussão ganha ainda mais significado. A cidade aparece como ponto de partida de uma produção cultural que ultrapassou as fronteiras do município. Escritora, ela publicou livros, participou de festivais e integrou iniciativas nacionais de circulação literária. No audiovisual, atuou em produções como Índia do Rio, A Voz de Guadakan e Mapago, entre outras.
A experiência também está refletida em outra proposta da plataforma: o Programa de Incentivo à Economia Criativa do Pantanal, que prevê iniciativas de estímulo ao turismo cultural, audiovisual, gastronomia, artesanato e tecnologia. A intenção é transformar a cultura em uma frente de geração de emprego e renda, especialmente em um território marcado por uma forte identidade cultural e ambiental.
“Na literatura, no cinema e na educação, aprendemos que a força está na construção coletiva das histórias. A cultura é uma forma de transformar vidas e também de transformar a maneira como as pessoas enxergam a nossa existência”.
A proposta de descentralização também parte de uma realidade vivida por quem produz cultura fora dos grandes centros. Ao defender recursos diretamente para os municípios do interior, Gleycielli pretende ampliar as possibilidades para artistas, coletivos, produtores e comunidades que muitas vezes precisam deslocar suas atividades para as capitais para acessar políticas públicas.
É uma perspectiva que se relaciona com sua própria trajetória. Em Coxim, Gleycielli foi professora, atuou na área cultural e participou da construção de iniciativas artísticas e coletivas. Também presidiu o Fórum Estadual de Cultura de Mato Grosso do Sul e integrou diferentes espaços de participação cultural.
“Eu acredito que a cultura, a literatura, o cinema e a educação são ferramentas para transformar vidas. Quando fortalecemos essas áreas, fortalecemos também as pessoas, suas histórias, suas identidades e os territórios onde elas vivem”.
*Cultura indígena no centro da política cultural*
A defesa de uma política cultural descentralizada está diretamente ligada à valorização das culturas indígenas. A proposta do Brasil das Culturas Vivas prevê incentivo à produção indígena, à cultura quilombola, aos povos de terreiro e aos artistas populares.
Para uma liderança do povo Guató, essa ampliação significa permitir que comunidades tradicionais sejam também produtoras e protagonistas de suas próprias narrativas. “A política precisa compreender que existem muitas culturas, muitas histórias e muitas formas de construir conhecimento. A nossa voz precisa estar dentro dessas decisões”.
A proposta de Gleycielli também prevê o fortalecimento da cultura como instrumento de desenvolvimento regional. Em sua plataforma, a economia criativa aparece associada ao turismo cultural, ao audiovisual, à gastronomia, ao artesanato e à tecnologia, criando possibilidades para que a produção cultural do Pantanal seja reconhecida também como atividade econômica.
Para quem começou em Coxim e construiu sua carreira a partir do interior, a defesa de uma política cultural nacional com recursos chegando aos municípios representa mais do que uma proposta administrativa: é uma tentativa de fazer com que outros artistas não precisem abandonar seus territórios para encontrar oportunidades.
“Eu venho do interior. Eu sei o que significa construir cultura longe dos grandes centros. Por isso acredito que o interior também precisa ter acesso às políticas públicas, aos recursos e às oportunidades para contar suas próprias histórias”.
No centro dessa proposta está uma ideia que atravessa toda a trajetória de Gleycielli: a cultura como direito, memória e possibilidade de futuro para quem vive em Mato Grosso do Sul.

