Cesárea prévia é associada a risco 45% maior de câncer após mola gestacional
Estudo da Maternidade Escola da UFRJ relacionou a cesárea prévia a um risco 45% maior de neoplasia após mola gestacional. (Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil)
Estudo liderado pela UFRJ analisou 2.904 pacientes e recomenda acompanhamento mais atento, sem mudança automática no tratamento
Mulheres com histórico de cesariana apresentaram risco 45% maior de desenvolver neoplasia trofoblástica gestacional após uma mola gestacional, segundo estudo liderado por pesquisadores da Maternidade Escola da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A pesquisa identificou uma associação independente entre a cirurgia prévia e a doença rara, que se origina em células ligadas à formação da placenta.
A análise reuniu dados de 2.904 pacientes atendidas entre 2002 e 2022 na Maternidade Escola da UFRJ e no Centro de Doença Trofoblástica da Nova Inglaterra, ligado à Universidade de Harvard, nos Estados Unidos. Do total, 468 mulheres tinham passado por pelo menos uma cesariana.
Entre as pacientes com histórico da cirurgia, 26,5% desenvolveram a neoplasia. No grupo sem cesárea anterior, a proporção foi de 20,8%. Segundo os pesquisadores, outros fatores que poderiam interferir no resultado foram controlados durante a análise.
O achado não significa que a cesariana provoque diretamente o câncer nem que todas as mulheres submetidas ao procedimento estejam sujeitas ao mesmo risco. A relação foi observada especificamente entre pacientes que tiveram mola gestacional, uma alteração rara decorrente de uma fertilização anormal.
O que é a mola gestacional
A mola gestacional, também chamada de mola hidatiforme, ocorre quando a fertilização dá origem a um tecido placentário anormal. Na mola completa, não há formação de feto. Na parcial, pode haver um feto inviável.
A neoplasia trofoblástica gestacional é a complicação mais grave desse quadro. Ela ocorre quando células da mola permanecem ou se desenvolvem no organismo, principalmente no útero. As doenças trofoblásticas gestacionais incluem condições pré-malignas e malignas relacionadas à gravidez e, quando tratadas adequadamente, geralmente apresentam prognóstico favorável.
Em até 20% dos casos de mola gestacional, as células anormais podem evoluir para uma neoplasia. No Brasil, a doença trofoblástica ocorre em aproximadamente uma a cada 200 a 400 gestações, com estimativa de cerca de 2,9 mil casos anuais de neoplasia.
Antes do novo estudo, já eram conhecidos outros fatores relacionados ao risco, como mola completa, idade acima de 40 anos, níveis muito elevados do hormônio hCG, episódios anteriores da doença e presença de cistos nos ovários.
Cicatriz no útero é uma das hipóteses
A principal hipótese apresentada pelos pesquisadores é que a cicatriz deixada pela cesariana possa alterar o ambiente do útero. O procedimento envolve uma incisão no órgão e pode provocar fibrose, remodelamento dos vasos sanguíneos e alterações na resposta imunológica.
“A cicatriz da cesárea é uma área frágil dentro do útero. Então, é como se fosse uma porta de entrada para a mola, que acaba tendo mais poder de invasão para entrar no útero e levar ao câncer”, explicou a médica Gabriela Paiva, líder da pesquisa realizada durante seu doutorado.
A investigação brasileira foi inspirada por um trabalho semelhante desenvolvido na Coreia do Sul, mas com um número menor de pacientes. A quantidade de mulheres acompanhadas pela UFRJ permitiu ampliar a análise.
O Ambulatório de Doença Trofoblástica Gestacional da Maternidade Escola da UFRJ é apontado como o terceiro maior centro do mundo dedicado ao atendimento e à pesquisa da mola gestacional. Cerca de 80 pacientes são atendidas semanalmente na unidade, que integra a rede pública de saúde.
Estudo não recomenda tratamento mais agressivo
Apesar da associação identificada, os pesquisadores não recomendam que mulheres com cesariana anterior recebam automaticamente um tratamento mais agressivo caso desenvolvam a neoplasia.
A orientação é intensificar a vigilância desde o diagnóstico da mola gestacional. O acompanhamento costuma incluir medições do hormônio hCG, que funciona como marcador para verificar se o tecido anormal desapareceu ou continua ativo. Protocolos médicos também preveem tratamento e seguimento em serviços especializados.
Nos casos em que a doença evolui para neoplasia, a conduta pode envolver o esvaziamento do útero por aspiração, quimioterapia e monitoramento contínuo do hCG. A retirada do útero, chamada histerectomia, é indicada apenas em situações específicas.
O coordenador do ambulatório da UFRJ e orientador do estudo, Antônio Braga, ressaltou que a cesariana é um procedimento importante e capaz de salvar vidas, mas deve ser indicada de maneira consciente.
“Esse é um tema que merece ser tratado como mais um risco agregado para as mulheres submetidas a cesarianas. Cesariana é uma cirurgia salvadora de vidas, muito importante para garantir a segurança da mãe e do bebê, mas ela deve ser feita de forma consciente”, afirmou.
Redução de cesáreas poderia evitar casos
O estudo estima que uma redução de 20 pontos percentuais na proporção de cesarianas realizadas no Brasil, levando a taxa para 35%, poderia evitar aproximadamente 177 casos de neoplasia por ano. Isso representaria uma queda estimada de 6,1% na incidência anual da doença.
Os autores defendem que a neoplasia trofoblástica pós-molar seja considerada entre as possíveis consequências de longo prazo associadas a uma cesariana anterior, ao lado de complicações já conhecidas, como ruptura uterina, parto prematuro e alterações na implantação da placenta.
A pesquisa reforça, no entanto, que mulheres com histórico de cesárea não devem interromper tratamentos nem tomar decisões médicas por conta própria. O resultado se aplica ao acompanhamento de pacientes diagnosticadas com mola gestacional e deve ser interpretado por profissionais especializados.
Iury de Oliveira – fonte: https://acritica.net/
