Uso de zolpidem cresce no Brasil e vira alerta entre especialistas

Consenso nacional aponta avanço preocupante no consumo das ‘drogas Z’, risco de dependência e necessidade de limitar o uso

Redação

Por: Noticias Digital – 01/12/2025 – fonte: https://www.acritica.net/

Vendas de zolpidem dispararam no País nos últimos anos – Foto: LuchschenF/Adobe Stock

O aumento acelerado no consumo de medicamentos usados para tratar insônia reacendeu a preocupação de especialistas brasileiros. Um consenso recém-publicado por profissionais das áreas de neurologia, psiquiatria, psicobiologia e medicina do sono chama atenção para o uso indiscriminado do zolpidem e de outros fármacos da mesma classe, conhecidos como “drogas Z”.

O documento, elaborado pela Academia Brasileira de Neurologia (ABN) e divulgado na revista Arquivos de Neuro-Psiquiatria, classifica o cenário como um problema de saúde pública. Segundo dados da Anvisa citados na diretriz, o zolpidem já é o terceiro hipnótico mais vendido do país, atrás apenas de clonazepam e alprazolam. Entre 2014 e 2021, as vendas cresceram 139%, saltando de 338 mil para mais de 810 mil caixas.

Além do consumo elevado, a venda irregular do medicamento também motivou o alerta. Segundo os autores, o zolpidem está entre os fármacos mais frequentemente comercializados sem prescrição ou de forma ilegal, o que facilita o uso sem acompanhamento médico e aumenta o risco de dependência.

Paulo Afonso Mei, coordenador do Departamento Científico de Sono da ABN e um dos responsáveis pelo estudo, afirma que a pandemia intensificou esse quadro. “Essa é uma percepção muito clara na comunidade médica, houve uma explosão desses diagnósticos. Em estudos próprios, também constatei um aumento de cerca de 40% na proporção de pacientes com queixas relacionadas a problemas do sono”, relata.

A adoção das prescrições digitais durante o período de distanciamento social também contribuiu para ampliar o acesso ao remédio. Diante desse avanço, a Anvisa reforçou o controle em 2023, exigindo receita azul e intensificando a fiscalização. Para Mei, essa medida ajudou a desacelerar o crescimento no consumo. “Foi a única ação de maior impacto que realmente se mostrou eficaz para conter um pouco as prescrições”, afirma.

O zolpidem começou a ser comercializado na década de 1990 e ganhou espaço por apresentar efeitos colaterais considerados mais leves que os de outros psicotrópicos. Isso, porém, não impediu o aumento dos casos de dependência à medida que o uso se popularizou. Nas redes sociais, é comum encontrar relatos de pessoas que afirmam não conseguir dormir sem o medicamento.

A bula, no entanto, é clara: o uso deve ser limitado a no máximo quatro semanas seguidas. “Mas isso raramente é respeitado”, explica Mei. O risco não está apenas na dependência. Há registros de efeitos colaterais que envolvem comportamentos amnésicos, como episódios semelhantes a sonambulismo. Em alguns casos, usuários realizaram ações das quais não se lembram, chegando até a se ferir ou cometer ilegalidades sem ter consciência.

Segundo o consenso, o zolpidem continua sendo eficaz para casos de insônia aguda — aquela que surge em momentos de tensão, mudanças na rotina ou períodos de estresse. Mas não deve ser usado de forma contínua, como ocorre com quem sofre de insônia crônica, definida pela dificuldade de iniciar ou manter o sono por mais de três meses.

Insônia

A diretriz reforça que o tratamento de primeira linha para insônia é a terapia cognitivo-comportamental (TCC). Além de auxiliar na melhoria do sono, a TCC é eficaz no processo de desmame das “drogas Z”, tanto em adultos quanto em idosos. Segundo Mei, entre seis e dez sessões já são suficientes para observar melhora significativa.

Outro ponto destacado é a importância da higiene do sono, uma série de ajustes diários que contribuem para um descanso mais consistente. Entre as recomendações estão: